

Tessituras do invisível: desdobrando Cascaes
Ao acessar a reserva técnica do MArquE/UFSC, onde se encontram obras e arquivos de Franklin Cascaes, um detalhe aparentemente periférico revelou-se central: sacos meticulosamente organizados contendo pequenos bancos, luminárias e diversos objetos cênicos. Esses elementos, preservados e repetidos, eram fundamentais para a construção das narrativas visuais e orais do artista, que os mobilizava ao contar e recontar as histórias do imaginário manezinho.
Este trabalho nasce desse encontro e propõe uma ressignificação da obra de Franklin Cascaes – artista, pesquisador e mitólogo que dedicou sua vida a registrar, por meio da escultura, do desenho e da palavra, os costumes mitos e modos da vida dos açorianos da ilha de Santa Catarina. Ao invés de revisitar suas guras diretamente, a obra desloca o olhar para um de seus suportes recorrentes: o banco em miniatura.
Aqui, o banco deixa de ser apenas um objetos funcional e torna-se narrador. Ele sustenta corpos, tempos e vozes distintas, operando como um dispositivo de memória e transmissão.
Sobre ele, ergue-se uma bandeira-metáfora das histórias contadas – onde se inscrevem paisagens, botânicas e territórios da ilha. Por essa superfície passam contos mitos e fábulas, mistérios e também a realidade contemporânea, atravessada por minhas próprias narrativas, reivindicações e deslocamentos.
A obra se materializa em xilogravuras de paisagens e botânicas, pertencentes as séries Natureza e Paisagens da Ilha, impressas sobre pano americano. As imagens são costuradas, e desfiadas, recriando a ilha como um corpo téxtil fragmentado e refeito. Montada como estandarte, essas superfícies evocam tanto a tradição quanto a instabilidade da memória armando o gesto manual como forma de reinscrição simbólica.
Sobre simples banco, histórias extraordinárias são contadas” propõe assim, um diálogo entre tempos: a memória preservada por Cascais e um olhar contemporâneo que reivindica novas formas de narrar a ilha, entendendo-a não como território fixo, mas como trama viva, costurada por histórias que insistem em permanecer.

Fotografia: Mário Oliveira
Gavina. Sobre simples bancos, histórias extraordinárias são contadas. Xilogravura sobre pano americano, customizados entre costuras e desfiamentos. 1134 x 300 cm. 2026.