

Observatório
Entre brechas e fendas, entre o que se revela e o que se oculta, a exposição OBSERVATÓRIO convida-nos a repensar os modos de ver e ser visto. Maria Paula e Gavina constroem aqui não apenas uma mostra, mas um manifesto sobre a urgência do olhar atento em tempos de colapso e transformação.
O observatório, tradicionalmente espaço de contemplação científica do cosmos, transmuta-se nesta exposição em território de intimidade e resistência. Não se trata mais da torre distante que escruta o universo, mas do corpo que se dobra sobre si mesmo para compreender as fraturas do mundo contemporâneo.
Como Mia Couto muito bem coloca, "O olhar não é apenas um ato fisiológico, mas uma arqueologia do presente", convocando a metáfora deste olhar para o presente, sugerindo que quando olhamos para algo, não estamos apenas vendo superficialmente, mas escavando camadas de significados e história que se acumularam no momento presente.
As obras reunidas em OBSERVATÓRIO emergem de um território comum onde a matéria se abre em convite ao olhar. Aqui, a cerâmica, pintura, fotografia e a xilogravura dialogam não apenas através de suas especificidades técnicas, mas pela urgência compartilhada de criar brechas no tempo presente. São trabalhos que nascem do abandono das formas previsíveis. Revelam paisagens que insistem em resistir, confrontando os olhares coloniais com territórios que respiram suas memórias e feridas. A xilogravura, técnica de incisão, torna-se método de restituição da memória, enquanto a cerâmica, a pintura e a fotografia se abrem em frestas temporais. Nas tramas desconstruídas e reconstruídas emergem imaginários mutantes da natureza, metáforas visuais de um ambiente transformado, quase irreconhecível. Os mitos aparecem não como narrativas distantes, mas como forças vivas
que atravessam o presente, convergindo mitologias diversas na formação de um imaginário híbrido.
OBSERVATÓRIO revela-se assim como espaço de encontro entre diferentes temporalidades: o tempo geológico da cerâmica, o tempo do gesto e do olhar na pintura e fotografia, o tempo histórico da colonização, o tempo mítico das narrativas ancestrais e o tempo presente da urgência ecológica. É na convergência destes tempos que as obras respiram e nos convidam a respirar junto.
Este é um observatório feito de terra, madeira e papel, de luz e sombra, de ferida e cura. Um observatório que não se contenta em mapear as estrelas, mas que se dedica a cartografar as possibilidades de futuro que emergem das ruínas do presente. Um observatório, enfim, que nos observa enquanto nós o observamos, numa troca de olhares transformados sem fim.
“A exposição permanece aberta enquanto durar nossa capacidade de espanto”. (Mia Couto)
Meg Tomio Roussenq I Curadora








Fotografia: Luma Heimann
Exposição com curadoria de Meg Tomio Roussenq, na Galeria Berlin, em Florianópolis (2025).