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Combinações entre natureza e artifício: ressignificações da obra de Pedro Paulo Vecchietti

Proponho estabelecer diálogo entre a obra e produção de Vecchietti e meu próprio percurso de pesquisa artística.


Esse encontro se desdobra em dois caminhos. O primeiro, mais evidente, surge em suas tapeçarias, nas quais suas vinhetas ganham corpo e textura. Nelas, encontro ressonância com a técnica que venho explorando na série ¨tramas¨ de 2024, onde o urdume e a trama em papeis xilogravados compõe metáforas da natureza e de sua destruição. A materialidade do entrelaçamento, presente em ambos os trabalhos, ecoa como uma ponte temporal entre minha pesquisa e a tessitura de Vecchietti.

O segundo ponto de convergência manifesta-se no tema da natureza da ilha de Santa Catarina. As vinhetas de Vecchietti, povoadas por elementos florais e imaginários botânicos retirados da ilha, encontrando espelho em minha própria investigação visual, que também se volta a flora, a paisagem e a potencia simbólica da ilha. A ressignificação proposta na série Olhar da Medusa encontra eco nas questões urbanas atuais de Florianópolis, em especial nas discussões em torno do Plano Diretor e dos processos acelerados de verticalização da cidade. Assim como nas imagens que sobrepõem a organicidade da xilogravura à rigidez arquitetônica, o território insular hoje vive o embate entre paisagem natural e a expansão construtiva. A verticalização, apresentada como solução para o crescimento urbano, muitas vezes se converte em ameaça à paisagem, ao equilíbrio ecológico e à memória cultural da cidade. O mesmo olhar mítico da Medusa, que paralisa e inquieta, reaparece no cenário urbano: a natureza, antes protagonista, encontra-se progressivamente ofuscada.

Nesse contexto, a obra torna-se metáfora da Florianópolis contemporânea — uma ilha tensionada entre a preservação de seus ecossistemas frágeis e a pressão do capital imobiliário. O futuro incerto, insinuado nas tramas entre gravura e fotografia, também habita os debates do Plano Diretor: qual cidade se deseja construir e qual natureza se deseja preservar? A inquietação que pulsa nas imagens é a mesma que reverbera no cotidiano urbano, onde escolhas políticas e sociais definem se o olhar que projetamos sobre a cidade será de paralisia ou de reinvenção.

A partir desses diálogos, ressignifico sua obra no mote da exposição Vecchietti – combinações entre natureza e artifício, especialmente na serie “Olhar da Medusa”. Nela, minhas xilogravuras policromadas se entrelaçam a fotografias de edificações simbólicas e icônicas de Nova York feitas por mim nos anos 90 impressas em fine arte sobre papel Canson 300g. Esse confronto entre paisagem natural e arquitetura construída tenciona o olhar; revela uma natureza ameaçada pela presença crescente de construções que se impõem sobre ela. E , tal qual o olhar mítico da Medusa – permanece a inquietação diante de um futuro incerto, onde natureza e artifício seguem entrelaçados, em confronto e ressignificações.

Gavina - Vecchietti - Baixa I 2025 I 05.jpg

Fotografia: Mário Oliveira

Gavina. Olhar da Medusa I. Xilogravura policromada reproduzida em fine art sobre Canson 300 g/m², tramada com fotografia em fine art sobre Canson 300 g/m² envelopado em acrílico cristal, 73,5 x 100 cm. 2025.

Exposição Coletiva com curadoria de Meg Tomio Roussenq e Anna Moraes, na Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti, em Florianópolis (2025).

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