

As Coletoras: ressignificações da obra de Eli Heil e Vera Sabino
A proposta de ressignificação de Eli Heil no contexto das comemorações dos 50 anos da Acap em As Coletoras apresenta-se como um desafio instigante – pela força, pela complexidade e pela amplitude simbólica de sua obra.
Inserida na série Mitos, iniciada a partir da primeira homenagem da Acap, esta nova investigação amplia o campo mítico para além das tradições indígenas, africanas, gregoromanas, indianas e orientais. A partir de Eli, abre-se a possibilidade de acessar mitos íntimos, pessoais, oriundos do cotidiano da poética singular, como aquela que a artista Eli constrói ao longo de sua trajetória.
Os mitos contemporâneos propostos nesta série não habitam o distante ou o lendário, mas emergem do concreto, do comum, do gosto diário. São mitos do agora – das resistências silenciosas, das invenções pessoais, dos enfrentamentos cotidianos que cada ser realiza diante das forças sociais, políticas, culturais e ambientais que o atravessam.
Ressignificar Eli Heil exige tempo, escuta e imersão em sua obra em seus múltiplos sentidos. Em sua Iemanjá (1987), técnica mista sobre Eucatex, encontro uma síntese potente : a entidade africana que, sobre o processo do sincretismo e colonização, assume o manto cristão de Nossa Senhora transmutando-se em símbolo híbrido de fé e resistência. Ao redor criaturas marinhas e renda de bilro – traço açoriano – reafirmam o pertencimento da artista ao universo manezinho em gesto que costura o local ao mítico, o feminino ao ancestral.
A Iemanjá de Eli é, assim, espelho e emblema : uma figura que flutua entre mundos, transportando o sagrado e o humano, o mar e a terra, a artista e sua ilha. É a partir dessa obra específica que estabeleço meu diálogo com Eli Heil. Aproprio-me de sua Iemanjá de 1985 como ponto de partida e sobreponho a ela a figura de uma mulher preta multifacetada - imagem que reatualiza e tenciona o arquétipo da entidade. Essa sobreposição cria uma obra de caráter monolítico, centrada na presença da própria figura feminina, mas carregada de múltiplos significados advindos do universo simbólico de Eli. O trabalho se constrói à partir de um desenho em grafite reproduzido em fine art entrelaçado à imagem de Iemanjá de Eli, também impressa em fine arte sobre papel canson 300g. A fusão dessas camadas visuais se dá por meio da técnica de trama e urdume - um gesto simbólico que reinterpreta o sincretismo como ato antropofágico cultural, onde heranças distintas se entrelaçam, devoram-se e se transformam mutuamente.
Ao ressignificar Eli Heil sob o prisma da série Mitos, proponho um diálogo entre tempos, corpos e linguagens. A obra torna-se espaço de atravessamento, onde o feminino, o ancestral e o contemporâneo se reencontram em novas configurações simbólicas. Trata-se antes de tudo, de um gesto de escuta - uma tentativa de compreender Eli não apenas pela forma ou pelo ícone, mas pela força vital de sua criação que continua a pulsar e a gerar novos sentidos tessitura viva da arte.

Fotografia: Mário Oliveira
Gavina. Sem título. Desenho em grafite reproduzido em fine art sobre reprodução da obra Iemanja de Eli Heil em fine art sobre papel Canson 300 g/m² tramadas na técnica da trama e urdume nas medidas de 76 x 112 cm.
Exposição Coletiva com curadoria de Meg Tomio Roussenq e Anna Moraes, no Museu da Escola Catarinense, em Florianópolis (2025).